Lamento informar, o cliente não tem sempre razão, o cliente não é quem tudo sabe, pelo menos não quando se fala de Arquitectura. Hoje em dia quando alguém vai ter com um Arquitecto para fazer a sua casa, no fim acaba triste, deprimido e insatisfeito com a obra, seja qual for a sua qualidade.
A resposta é simples, a culpa é da escolha, da enorme quantidade de escolhas que o cliente pode efectuar. O cliente deveria ter um poder de escolha limitado.
E agora dizem vocês, mas o homem levou séculos a ter um poder de escolha tão vasto, não tem sentido limitar tudo agora. Isso iria apenas enfurecer as pessoas.
Errado, ou maioritariamente errado.
Os vossos avos passam a vida a dizer, ” No tempo do Salazar é que era,” ” D. Afonso Henriques deveria vir ver o que vocês fizeram ao vosso país,” a verdade é que eles têm razão, ” Quando éramos miseráveis, éramos mais felizes.”
Tentem lembrar-se da revolução industrial, da classe operária da época, evocando aqui a imagem dos EUA da classe operária da época. A maioria vivia em cidades dormitório, casas pequenas, sem grandes confortos, onde apenas dormiam e jantavam ao som de uma única emissora. Parece chato, mas a verdade é que as pessoas sorriam mais e eram mais felizes, mesmo ali sem direito a escolher uma casa maior, ou a escolher outra emissora, as pessoas tinham grande felicidade, quando a rádio passava algo novo eles sorriam surpreendidos.
Nos dias que correm, podemos escolher uma casa com 3 ou 4 quartos, quantas cozinhas desejar-mos, os materiais que queremos, a área desejada, projectar uma casa de sonhos a nossa medida, jantar a escutar uma centena de emissoras de rádio ou ver mais de 100 canais, e no entanto somos mais infelizes do que as pessoas eram à 1 ou 2 séculos. Se temos tudo isto, porque é que não somos felizes?
Seria de pensar que as pessoas ao poderem escolher o que mais desejam, seriam felizes, ou não?
A verdade é que não, demasiadas escolhas levam as pessoas a ficarem infelizes. Pensem comigo, vocês vão ver 5 materiais para utilizar em vossa casa, um cerâmico por exemplo, ao fim de uma hora vocês escolhem 1, pensam que esse será o melhor para o pavimento, ao fim de dois dias decidem que afinal se calhar preferem o outro cerâmico que lá estava, compram esse, e colocam na casa, até aqui tudo bem, no mês a seguir vão a casa de um amigo e tem lá o cerâmico que tinham escolhido antes, em casa do vosso amigo fica bem, e vocês gostaram de o ver, imediatamente vão pensar que deveriam ter comprado aquele em vez do que tem actualmente em casa, vão ficar descontentes com o que utilizam actualmente, mas não vão poder reclamar.
É aqui que entra o truque final. Antigamente quando as pessoas não tinham nada, e eram miseráveis, a culpa era do patrão, a culpa era do Arquitecto, a culpa era do governo, fosse qual fosse o erro, a culpa não era das pessoas que usufruíam do equipamento, porque? Porque eles não tinham poder de escolha, usavam o que lhes era impingido.
Hoje em dia, podemos votar, é culpa nossa que sejamos mal governados, hoje em dia escolhemos a forma da nossa casa, os materiais e tudo mais, é culpa nossa que a casa seja má, seja qual for o passo que damos, não podemos culpar outro alguém alem de nos, as nossas escolhas são nossa culpa, entendem onde quero chegar?
Pensem bem nisto:
” Quando éramos miseráveis, éramos mais felizes!”












Podemos sempre dizer que a culpa é de Deus, que não nos fabricou em condições … e assim já não sentimos a culpa de termos escolhido mal!!!
Isso apenas resulta quando uma pessoa é religiosa.
A lógica tende a por isso de parte, como se diz por aí, a religião não justifica nem explica tudo.